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domingo, fevereiro 07, 2016

Miguel e Carla, Carla e Miguel... Conto





-Carla...Carla...
Corre aqui, veja o que acabou de chegar.
-Nossa!!!
Era um convite, acompanhado de um maço de flores e uma garrafa de Champagne:
"As flores para colorir ainda mais teu dia, a Champagne para te alegrar e o convite...
Te espero amanhã as 8 da noite, no endereço marcado."
Miguel falava pouco, mas era direto.
Se falasse mais estragaria o estilo, a pompa e até a fama que o acompanhava mesmo fora dos limites de Portugal.
Trabalhar com os melhores vinhos do mundo, escolhendo, avaliando, comprando, vendendo, era o trabalho dele.
Com as mulheres muitas vezes as poucas palavras eram a princípio uma desvantagem, mas só a princípio.
Carla era para Miguel uma surpresa boa.
Aos 37 anos, bem vividos, encontrar a bela Carla era como um sonho.
Morena, com pouco mais de 1 metro e sessenta, 60 quilos, sorriso de deixar fabricante de creme dental hipnotizado.
Tudo isso estava incrivelmente em segundo plano.
Ela era inteligente, falava o suficiente e deixava as coisas fúteis fora de seu vocabulário.
Como se não existissem.
Era perfeita.
Na parte do coração história dos dois era parecida.
Miguel sofreu uma decepção amorosa que o deixou completamente fora do eixo.
Carla não tinha sorte no amor.
Um noivado terminado pouco antes da data marcada para o casamento era quase um trauma.
Ainda bem que quase.
-Olá Carla!
Carla trocava e-mails, fotos, mensagens, palavras... Mas não conhecia Miguel pessoalmente.
Conhecia pelo falatório que ele provocava por onde passava e por vender as uvas da quinta de sua família para um cliente de Miguel.
O Alto Douro vinhateiro ficava literalmente aos pés de Miguel.
Ele era consultor dos melhroes restaurantes de Nova Iorque, era responsável pela escolha de vinhos para grandes empresários, jogadores de futebol, artistas, cantores e até chefes de estado.
-Olá Miguel! Estou feliz por estar aqui. A Champagne me alegrou e as flores colocaram cor no dia nublado que fez hoje.
Miguel olhava cada detalhe, cada músculo do rosto de Carla.
Carla falava de tudo.
Política, esportes, cultura...
Miguel já não se aguentava.
Era tão direto que estava prestes a declarar nocaute.
Estava mesmo nocauteado pela beleza simples de Carla.
-O vinho senhor.
A garrafa do Barca Velha estava longe de ser uma ostentação.
Miguel poderia servir qualquer vinho do planeta, mas no Douro, com Carla, tinha que ser o Barca Velha.
Carla que não era uma conhecedora, mas era produtora de uvas e claro, portuguesa.
Se rendeu ao rótulo mais famoso de Portugal e levou a taça ao nariz.
Antes mesmo de sentir os aromas, viu estampado na garrafa: 1985.
Era o ano do seu nascimento.
Aos 30 anos, Carla nunca havia provado o famoso vinho.
-Nossa!!! É o ano do meu nascimento.
Miguel provou, levou ao nariz, e aprovou com o respeito que se deve ter a esse tipo de vinho.
Os dois conversaram por mais de duas horas.
Saíram andando pelas ruas do Porto sem pensar em nada.
Ao lado do Rio Douro, finalmente veio o beijo.
Parece incrível mas depois disso Carla e Miguel passaram dias sem se falar.
Não era falta de interesse nem de um nem de outro.
Era aquele medo da paixão avassaladora, que alguns seres conseguem controlar ou pensam que conseguem.
Nesse caso pensaram por quase uma semana.
-Está lá...
-Estou sim...
O segundo encontro foi ainda mais intenso.
O beijo, o passeio pela Ribeira e a noite juntos...
No dia seguinte, nada de contato (ou contacto como diriam).
Dessa vez passou mais de uma semana.
Dessa vez sem telefonema.
Até que Miguel estacionou seu carro na quinta da família de Carla em São João da pesqueira e foi logo entrando.
Estranho que os dois se olharam como se fosse a primeira vez.
Miguel tinha 1 metro e 80, mas naquele momento parecia mais.
Sabia o que queria de uma forma tão avassaladora que tinha aspecto de um gigante.
Carla desceu as escadas e olhou fixamente para os olhos de Miguel.
Saíram sem palavras pelas estradas sinuosas até o Porto.
Os dois sabiam exatamente o que queriam sem nenhum acordo, nenhuma palavra, como se as almas tivessem conversando.
Daquele dia em diante nunca mais souberam onde um começava e onde outro terminava.
Viraram um só.

quinta-feira, janeiro 14, 2016

28 anos depois a vida continuou... Com o Marques de Riscal 1988 - Conto




Era um restaurante pequeno, daqueles com um estilo que só o Rio de Janeiro tem.
Se bem que os peixes na vitrine tinham algo de ibérico que funcionava muito bem.
O clima era esse quando um jovem senhor entrou com uma mala preta, pequena.
Perguntou logo para o garçom se podia se sentar naquela mesa.
Sentou justamente na mesa ao lado da minha.
Eu, sozinho prestava atenção em tudo.
É incrível como a solidão, mesmo que momentânea, aguça a curiosidade.
É como o cego que tem um nariz e um ouvido incrível.
O solitário tem uma percepção assustadora.
Ele parecia esperar alguém com uma ansiedade que atravessava os limites do seu corpo.
Olhava o relógio, é claro.
Nem água pediu.
Depois de 3 ou 4 olhadas no relógio ela chegou.
Tinha quase a mesma idade que ele.
Ele de cabelos brancos, corpo franzino, olhar amigável e sorriso simpático.
Parecia bonito por dentro.
Por fora era magro, estava em forma, não era de se jogar fora.
Ela era um pouco mais jovem.
Talvez, no máximo, 5 anos mais jovem.
Mas sabe como são as mulheres...
Ela tinha o corpo de um a mulher de 50 anos, mas cabelos brancos não tinha.
Rugas, nem pensar.
Pra que existem tantos cremes.
O abraço foi longo.
Talvez como a espera.
Ela tinha uns quilinhos a mais, mas poucos.
O rosto sim era um pouco bochechudo.
Ele não via nada disso.
Pela expressão no rosto, ele via a Garota de Ipanema.
Embora estivéssemos no Leme.
Meus ouvidos se aguçaram como se eu fosse ganhar sozinho na Mega Sena se descobrisse algo.
Não foi preciso.
Ela tinha o tom de voz alto.
Facilitou tudo.
-Você esta muito bem.
Ele respondeu prontamente: "definitivamente o tempo não passou pra você..."
O garçom, já um senhor apareceu para cortar a troca de elogios.
-Ja querem escolher?
Ela não escondia nada: "Faz 28 anos que nos despedimos neste lugar, estamos nos reencontrando aqui. Quero o mesmo prato que pedimos naquele dia.
-O que pediram?
Ele respondeu: lula.
-Não... Disse ela.
-Era polvo. Qual prato de polvo vocês têm?
O garçom se permitiu a uma observação: "Estou aqui a 35 anos. O polvo é o mesmo. Acho que me lembro vagamente de vocês.
Na verdade me lembro bem.
Teve uma tarde em que dois clientes saíram daqui aos prantos porque a moça teria resolvido se casar.
Naquela noite não consegui dormir com aquele pensamento.
Lembrava do rosto do rapaz com as lágrimas que não paravam de correr.
Lembrava da forma como ele disse quase sem voz: Te espero pela eternidade..."
Neste momento quase não me aguentava, e cheguei a virar a cadeira.
Vi o rosto dos dois com atenção e olhos fixos para o garçom.
As lágrimas corriam dos olhos dele, dela, meus....
O garçom seguia firme.
Terminou a história dizendo que se fosse eles teria ganho o dia, o mes, os anos que passou lembrando daquela despedida.
Ela não media palavras: "Era eu... Me casei... Separei... Sofri... Estamos nos reencontrando depois de 28 anos...
Queremos o mesmo prato, o mesmo vinho, começar de onde paramos..."
Veio o polvo com um molho de tomate, e o jovem senhor tirou da mala (que também tinha roupas) um Marques de Riscal 1988.
Os dois seguiram sem palavras...
Eu precisava ir embora mas esperei até ouvir o suficiente.
-Te amo, sempre te amei e sempre vou te amar...
Ela ouviu e deixou que as lágrimas corressem, enxugou um pouco, deu um longo beijo na boca do grande  amor (Acho que se chamava Alfredo) e eu me levantei.
Antes de sair ainda vi o brinde com o vinho da idade da despedida, marcando o reencontro.
Fui embora guardando essa história.
Pelo menos sei que teve final feliz.
Tarde.
Mas feliz...



quarta-feira, novembro 04, 2015

O dia que a história venceu a lei...


Marcel vivia fazendo o caminho Saint-Émilion/Bordeaux, Saint-Émilion/Paris e diversos caminhos que levassem os vinhos cheios de história até os pontos de venda.
Viajava com seu carro com responsabilidade, mas desrespeitando a lei, já que beber (mesmo cuspindo sempre) e dirigir é crime.
Entre o crime e a necessidade vivia Marcel.
Entre as duas coisas estava sempre a responsabilidade.
Cuspia cada dose, se a viagem fosse longa parava sempre que batia o cansaço.
Não corria, não exagerava, não tinha pressa e até era gentil no trânsito.
Mas o que fazer se o trabalho é mostrar os vinhos para compradores e quase sempre abrir uma garrafa para prova...
Um dia começou a trabalhar para um produtor famoso.
Foi até a propriedade e provou várias safras.
Era na verdade uma vertical de 5 safras.
A história do produtor era conhecida entre os amantes do vinho.
A prova foi fantástica, mas mesmo assim Marcel cuspiu cada dose.
Bem que teve vontade de beber, mas a responsabilidade era intocável.
Saiu de Saint-Émilion já era noite.
Já bem perto de Bordeaux a surpresa...
Documentos, revista no carro, garrafas de vinho, bafômetro.
Marcel explicou para o sério Monsieur Beaumont que havia sim provado vinhos, mas que não engoliu nem uma gota de álcool.
Monsieur Beaumont, que era um policial perto da aposentadoria, com uma história de bons serviços prestados, ouviu com atenção, mas nem pensava em aliviar nada.
Marcel estava tão empolgado com a prova, que começou a contar a história do produtor que ele havia visitado.
Contou que o produtor era conhecido nos quatro cantos do mundo, que entrou na vida de produtor de vinhos sem nenhuma pretensão.
Que era um bancário, que queria apenas mudar de vida.
Contou que comprou uns vinhedos que estavam com bom preço, que começou a fazer poucas garrafas em sua própria garagem...
Monsieur Beaumont escutava com os olhos arregalados.
Vez ou outra fazia um barulho ou um tipo: uhhh lala...
Marcel continuou.
Falou do preconceito dos outros produtores em relação ao forasteiro.
Falou que debochavam do cara que fazia vinhos na garagem.
Nesse momento Monsieu Beaumont ouvia como quem estivesse na cozinha da própria casa.
Olhava atento.
E sonhava.
Gostava do que estava ouvindo.
Marcel pegou o tablet e mostrou fotos.
Mostrou que o produtor virou um caso de sucesso.
Monsieur Beaumont já imaginava sua volta para o Languedoc e um futuro nas revistas do mundo todo.
Mostrou que a garagem passou de ofensa a marketing sem que o produtor tivesse planejado.
Nesse momento Monsieur Beaumont já nem lembrava como a história tinha começado.
Só pensava em pegar a aposentadoria e fazer o mesmo na terra natal.
Se sentia mesmo na cozinha de casa, numa conversa pra lá de interessante.
A conversa terminou e Monsieur Beaumont agradeceu pela história.
Disse que serviu como impulso ao que sempre sonhou.
Os dois se abraçaram como velhos amigos.
-Tenho certeza de que não está bêbado. Sei que está apto a dirigir para onde quiser. Uma história bem contada faz milagres.
Além disso, não me parece nenhum Bad Boy...
À bientôt...
-Merci...merci...
-Eu que agradeço.
Logo vai andar com meus vinhos em seu porta-malas...


sábado, setembro 05, 2015

Gilbert amava vinhos e música. Mas amava mais Jeanne. Conto



De novo eu uso uma música para ajudar a contar uma história.
É só dar um play e usar como trilha sonora...



Gilbert fazia vinhos fantásticos, músicas que eram pura poesia.
Conseguia manter as duas coisas separadas.
As músicas eram inspiradas pelo amor que sentia por Jeanne.
Os vinhos eram inspirados no que tinha aprendido com o avô, o pai, os filhos...
Sim, os mais jovens ensinam muita coisa.
Não existia um grande compositor francês que não conhecesse Gilbert.
E vários gravavam suas melodias e ficavam famosos com elas.
Jeanne tinha 1 metro e 65, olhar triste, esverdeado pelos olhos.
Era impenetrável no quesito sentimento.
Uma pedra.
Falava apenas o suficiente.
Era linda.
O corpo nem gordo nem magro, pernas, seios, tudo.
As letras fluíam como um rio.
Era se sentar, colocar o violão sobre as pernas e sair criando.
Os vinhos eram renomados, pontuados, disputados pelo mundo afora.
As músicas sempre tinham algo que lembrasse Jeanne.
Os vinhos sempre tinham algo do avô, do pai, dos filhos...
Num final de semana frio do inverno, Jeanne foi embora sem se despedir.
O sofrimento foi tão grande, que Gilbert não conseguia dormir, não conseguia despertar, não conseguia cuidar de nada que não fosse os vinhedos.
Acordava cedo e ía até altas horas.
Só queria saber dos vinhos.
Os olhos estavam sempre mareados, como se vivesse num choro sem fim e sofrimento profundo.
O violão começou a criar poeira, as músicas nem passavam pela sua cabeça.
Era difícil pensar em algo que não lembrasse Jeanne.
Se passar um dia sem ela era difícil, dessa vez ele aguentava meses.
Os vinhos seguiam com todo cuidado, como se ele fosse duas pessoas em uma.
O violão seguia num canto, mas algumas vezes chegava a cantarolar.
O tempo passava e nada de Jeanne aparecer.
Nem telefonema, nem mensagem, nem nada.
Um dia Gilbert precisou ir à Paris, para uma apresentação de vinhos.
No meio da apresentação uma mensagem: Estou aqui fora...
Ele deixou a sala da Universidade onde acontecia a apresentação imediatamente.
Abriu a porta e deu de cara com ela.
Nenhuma palavra.
Os olhos verdes de Jeanne estavam cheios de lágrimas.
O abraço foi inevitável e o beijo só não foi mais forte porque o lugar não permitia.
Nenhuma palavra.
Entraram na apresentação sem nenhuma palavra.
Se olhavam, viam as lágrimas correr de um lado e de outro.
Saíram e continuaram em silêncio.
Andaram alguns metros e entraram em um bar.
Gilbert pediu um violão emprestado.
Nenhuma palavra ainda.
Cantou músicas conhecidas, cantou clássicos e terminou com uma inédita.
Jeanne ouvia e chorava.
Conversaram por horas.
Tomaram vinhos.
Jeanne explicou que o sumiço foi de reflexão, sem traição.
Essa história aconteceu faz 10 anos e hoje os dois contam com uma mistura de tristeza, pelo sofrimento que causou, e alegria, pelo futuro que provocou.

quinta-feira, agosto 13, 2015

Malena acertava tudo. Conto



Malena tinha um humor fora do normal.
Não precisava motivos para rir, não precisava motivos para fazer brincadeiras e deixar qualquer um de cabelo em pé.
Levava a vida de uma forma leve, sem sustos, sem solavancos, sem barulho e nem silencio.
Silenciosa era a colheitadeira que pegou emprestada para testar e fazer propaganda entre os vizinhos.
Silenciosa, eficiente, rápida...
A estratégia de marketing que ela escolheu para ajudar o namorado a vender a máquina era um pouco, digamos... Diferente.
Enquanto todos colhiam as brancas, na encantadora e inigualável Côte de Beaune, Malena ficou quieta, sem mexer em uma uva.
Todos achavam estranho que aquela francêsa, filha de espanhóis deixasse as uvas no pé quando as sementes já estavam crocantes e as polpas doces como mel.
O que ninguém esperava é que no dia seguinte do fim da colheita, os pés dos vinhedos de Malena estivessem mais vazios que os dos vizinhos.
-Como pode isso?
-Quem mexeu nessas uvas???
-Mistério...
Malena desapareceu para que o mistério ganhasse proporções estratosféricas (em termos de Borgonha).
Até a tv francesa havia ligado para saber o que tinha acontecido.
Ovnis???
Ets disfarçados de camponeses???
Mas como ninguém viu nada???
Malena poderia ser menos paciente, mas esperou por uma semana até dar o ar da graça.
Teve ainda a inteligência de fazer a ação durante a colheita das brancas, esperando que o sucesso viesse na hora da colheita das tintas.
Apareceu e a casa onde morava ficou cercada por curiosos, fotógrafos, cinegrafistas... Tudo.
Todo tipo de desocupado e até ocupados distraídos foram para lá.
Os pés estavam mais pelados que madrinha de bateria de escola de samba.
Malena apareceu para uma verdadeira coletiva para pouca imprensa, mas muitos curiosos.
Bonita como sempre.
Olhos negros, cabelos negros, alta, corpo escultural e um sorriso que só quem viu pode saber. Impossível descrever.
-Não entendi porque tanta agitação. Foi tão simples colher essas uvas...
Tão rápido, tão silencioso, tão fácil.
Os ares holywoodianos estavam programados para agora.
Atrás de Malena a cortina tinha que abrir e a tal máquina aparecer...
Mas...
Malena pensava em tudo, mas não tinha controle sobre o que não participava.
Michel era o responsável pela engenhoca, que viria seguida de uma queima de fogos e chuva de papel picado.
A cortina caiu...
Os fogos por sorte não explodiram e o papel picado caiu todo no mesmo lugar, como se fosse uma bomba jogada bem em cima da colheitadeira, que já estava ligada e soltando fumaça.
Michel acelerou e a colheitadeira saiu quase atropelando todo mundo.
Nenhum barulho, mas muita confusão.
Michel são sabia dirigir, mas cismou de andar com a colheitadeira.
Passou por cima dos vinhedos, desceu ladeira abaixo até capotar de forma grotesca e felizmente sem nenhum arranhão.
Malena gostava de Michel assim mesmo.
Desajeitado e ineficiente.
As pessoas queriam saber da colheitadeira mas viram um espetáculo de pastelão.
Até que Malena levantou com calma e formosura, andou entre os vinhedos, falou do funcionamento da máquina, mostrou como as uvas saíam dos pés, mostrou como era barato, rapido e eficiente o trabalho mecânico.
Michel ainda limpava a roupa, tirava galhos da testa (sem trocadilho) e reclamava da ladeira.
Os pedidos foram imediatos.
O acidente parecia parte do show.
Com Malena até o errado dava certo...


segunda-feira, agosto 03, 2015

Pomerol, Canelé, Ariane, Mathieu... A lembrança é como uma doença rara... - Conto



Gostei da brincadeira do conto com trilha sonora.
Talvez seja uma vantagem da internet.
Clique e escute o Caetano enquanto conhece a história.



Ariane e Mathieu seguiam sempre o mesmo ritual.
Uma garrafa de um bom vinho do Pomerol, uma dose de Barsac, acompanhando um Canelé.
Entre tudo isso, dias, meses e anos de um amor colossal.
Talvez mais colossal para Ariane.
Depois de 730 garrafas de Pomerol, 730 doses de Barsac, 730 Canelés e 730 dias juntos, Mathieu se despediu.
Olhou para os olhos de Ariane e disse que o amor já não era forte o suficiente.
Não desviou o olhar, não desviou do assunto, não fugiu de nada.
Essas bobagens de sumir, excluir disso ou daquilo não fazia parte nem do caráter nem da natureza de Mathieu.
Entrou e saiu da relação como um lorde.
Isso doía mais ainda na cabeça de Ariane.
Nem amaldiçoar o pobre ela podia...
Poder podia, mas não se sentiria à vontade.
Os dias seguiram e o tanto de vinhos da mesma região ficavam guardados como se fossem lembrança de um defunto.
Nada de mexer naquele canto.
Canelé era um nome proibido.
Barsac era palavrão.
O pior é que quando se foge de alguma coisa, ela parece que persegue.
Ariane morava em Saint-Émilion, poucos quilômetros do Pomerol.
Cada almoço, cada wine bar, cada café no final de tarde encontrava uma garrafa de Pomerol e tudo vinha de novo.
As lembranças são como uma doença rara.
Ninguém sabe explicar, ninguém sabe se livrar delas...
Depois de quase um mes sem Mathieu, conheceu Gilbert.
Era um cara alto, magro, falastrão...
Bonito.
Entraram no restaurante para o que seria o primeiro de muitos jantares.
Veio a carta de vinhos e...
Bingo.
Pomerol.
Veio uma dor de cabeça, que Ariane não conseguia levantar os olhos.
Era enchaqueca.
Nem deu tempo dele pedir Barsac ou Canelé.
Nem sei se ele pediria isso.
Nem Ariane ficou sabendo.
Foi embora como um foguete.
Claro que Gilbert nunca mais apareceu.
No dia seguinte ela pediu que uma amiga retirasse de sua casa todas as garrafas que tivessem escrito: Pomerol...
Que pena!!!
Duas semanas depois, debaixo de uma chuva terrível, o carro de Ariane derrapou numa curva e bateu justamente na placa: Pomerol...
Aiaiaiai...
Era preciso uma manobra para voltar ao caminho.
Urgente.
Pegou o telefone e ligou sem pensar.
-Alô
-Me deixe viver Mathieu.
Você fez tudo certo.
Nada a reclamar.
Mas quero meu Pomerol de volta.
Quero meu Barsac.
Quero meu Canelé.
Em 15 minutos Mathieu batia na porta.
Entrou com uma garrafa de Château Petrus.
Levou um Barsac e uma caixa de Canelé.
Disse que estava reparando seu maior erro.
No dia seguinte a amiga trouxe todas as garrafas de volta.
A lembrança conseguiu o que queria, mas perdeu para a realidade.




PS: Pomerol é uma denominação de origem de Bordeaux (uma das mais importantes), Barsac é uma denominação de origem que produz vinhos doces, também em Bordeaux e Canelé é esse doce típico também de Bordeaux.
Château Petrus, é um dos vinhos mais caros do mundo, e é produzido no Pomerol.



sábado, agosto 01, 2015

A noite do Alentejo nunca mais foi a mesma - Conto



Clica na música do Lobão para eu contar uma história.


Era muito estranho para João, entender porque todas as noites uma das três mulheres contratadas para a colheita, entrava em seu quarto, entrava debaixo dos lençóis e começava um exercício que não seria nada normal ser contado com todas as letras em um blog onde o assunto principal é o vinho.
O estranho é que as 3 mulheres contratadas para a colheita eram bem tímidas.
Eram trabalhadoras, sérias...
Mas ele acordava vendo aquela pele morena levantando da cama e saindo rápido como uma fuga mesmo.
A noite ela chegava lentamente, como se convidasse para algo que todo mundo pode saber perfeitamente o que é.
Os lençóis brancos como se tivessem feito parte daquelas propagandas de sabão em pó só eram vistos pela manhã.
A noite eram só obstáculos entre ele e a misteriosa mulher que entrava no quarto, enchia ele de beijos, carinho e amor antes de fugir pela manhã.
Era como uma hipnose.
A curiosidade fazia com que ele tentasse ficar acordado, mas parece que ela esperava o momento certo para atacar.
Numa noite, quase no fim da colheita, tomou quase uma tonelada de café para ficar acordado.
fingiu que estava dormindo. 
Chegou a fazer barulhos de ronco.
Ela entrou.
Se enfiou debaixo dos lencóis.
Começou seu ritual irresistível e até impublicável, quando João viu que se tratava de Maria Inês.
Ela era a mais tímida.
A mais séria.
A mais respeitosa.
A mais linda.
A mais misteriosa.
Ele fingiu que estava dormindo, fingiu que não sabia quem era.
Fingiu como na verdade fingia nas outras noites, mas dessa vez tinha certeza de quem estava na sua cama.
No pouco tempo que restava na sua mente para pensar em outra coisa, pensou em como se revelar nas primeiras horas da manhã.
Infelizmente dormiu sem perceber.
Maria Inês saiu sem ser notada.
No dia seguinte, falar alguma coisa seria quase uma despedida.
Faltavam 3 dias para todas as uvas saírem dos pés para se transformarem no melhor vinho do Alentejo.
Melhor esperar.
Foram 3 noites de amor, e nem era preciso tomar o café.
Na última, ele tentou de todas as formas revelar pra ela que sabia perfeitamente o que estava acontecendo.
Mas misteriosamente dormia.
Era como uma consulta com hora marcada.
No dia seguinte o pagamento foi feito, os agradecimentos, a festa e nada de ter coragem de dizer o que queria...
João não queria que aquilo acabasse.
Maria Inês não teria coragem de se revelar, mas nem que o mundo acabasse.
Depois da festa ela fez mais uma vez o ritual que durou toda a colheita.
João pensou que o movimento da noite impediria a nova investida.
Ficou acordado e dessa vez ele fez tudo como queria.
Nada de adormecer.
Maria Inês bem que tentou.
O sol entrava pela fresta.
Ela fingiu que estava dormindo.
A Lua já se apagava pelo sol.
João olhava para o corpo de Maria Inês.
Era vez dela dormir, mesmo que de mentira.
Ele beijou sua boca com força.
Falou segredos.
Falou verdades.
Algumas mentiras.
Ela enfim resolveu acordar.
Pegou uma camisola, levantou com pressa e saiu.
João apareceu na despedida e deu um beijo no rosto de cada trabalhadora e um aperto de mão em cada trabalhador.
Maria Inês se despediu como as outras.
João ficou decepcionado.
Na verdade nunca havia sentido algo parecido.
O mistério somado a todo o resto era um sonho.
Bebeu uma garrafa de vinho e foi dormir mais pra lá do que pra cá.
No meio da noite aconteceu tudo de novo.
E continua acontecendo...

quinta-feira, julho 30, 2015

Entre o frio de Arnaldo Antunes e os versos de neruda estava Roberta e Lorenzo...



Mais um conto com trilha sonora. O primeiro passo é clicar no clip do Arnaldo Antunes.



Lorenzo fez tudo que podia.
Disse com todas as letras que queria Roberta.
Disse duas, três, mil vezes.
Jantaram, conversaram, beijaram, transaram...
Roberta disse que tinha gostado de tudo, mas vai saber...
Todos sabem que as mulheres são um poço de mentiras.
Lorenzo deu amor, carinho, juras de amor, palavras de amor e amor mesmo.
Construiu momentos felizes, construiu uma história que se não era grande era intensa.
Mostrou caminhos novos, enfrentou problemas velhos...
Fez com que Roberta tivesse todas as possibilidades de seguir vivendo com ele tudo o que pensava em viver.
Na verdade Roberta não pensava em tanto.
Roberta não queria algo tão intenso.
Roberta queria um caso, um amante, um amor de verão.
Lorenzo se recuperava da pressão de uma colheita com a obrigação de fazer um vinho ícone, onde qualquer falha pode valer o emprego, a carreira, a continuação da vida...
Ser enólogo de um ícone é uma pressão só comparada com a vida de um carcereiro num presídio de segurança "mínima" no Brasil.
A história aconteceu depois do engarrafamento dos vinhos.
Dos vinhedos de Casablanca até o Pacífico é um pulo.
Os dois se conheceram na casa de Pablo Neruda, em Valparaíso, com vista para a imensidão do oceano.
Entraram na casa do poeta, beberam a água do poeta, compraram os livros do poeta, um quadro do poeta e entraram nos versos do poeta...
Nem assim...
Não era pra ser.
Os beijos de Roberta eram quentes.
Os de Lorenzo eram intensos.
O abraço de Roberta era gostoso.
O de Lorenzo era verdadeiro.
Os sonhos de Roberta eram sonhos.
Os de Lorenzo eram realidade.
Alguns meses depois tudo virou apenas uma lembrança.
Dessas com dias contados para desaparecer pelo menos da cabeça de Roberta.
Lorenzo se fechou num refugio gelado, onde o vento que vinha do Oceano Pacífico teria o papel de manter a cabeça fria e a vista do mar poderia agradar os olhos.
O frio e a solidão serviram para aumentar a saudade, mas ajudaram a entender que só se resolve uma decepção sozinho.
Tentou esquecer Roberta, mas isso não era possível nem no verão, imagina no frio.
Se encontrou nos versos de Neruda:

"Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.
Mas para onde vá levarei o teu olhar 
e para onde caminhes levarás a minha dor.
Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos 
uma curva na rota por onde o amor passou.
Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame, 
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.
Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste. 
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.
...Do teu coração me diz adeus uma criança. 
E eu lhe digo adeus.
Pablo Neruda

sexta-feira, julho 24, 2015

Na colheita da Borgonha, Anna e Karl escreveram no livro da vida. - Conto


Anna já estava acostumada a pegar o Thalys (trem que liga a Holanda e a França) e trocar Amsterdam pela Borgonha todos os anos em época de colheita.
O que não estava acostumada era chegar na estação e um quase senhor, de 1 metro e 80, pegar sua mochila e levar até o bagageiro do trem.
Ela ficou assutada.
A sua visão feminista moderana ficou retorcida.
Mas o ego...
Esse gostou.
Ele era mais maduro.
Como se diz no Brasil, não cozinha mais na primeira fervura.
Ela jovem.
Bonita como toda holandesa, mas nada a ver com a beleza padrão do país.
Fila de cearense com paulistana, Anna era morena, cabelos e olhos escuros.
Alta, jovem, um olhar e um sorriso de deixar tonto qualquer mortal.
Quando falava era gentil, educada, inteligente...
Mas como Karl percebeu tudo isso antes mesmo de conversarem???
Intuição talvez.
A conversa veio depois.
Comeram um doce no trem.
Parece que o chocolate deixa as ideias mais claras, deixa os ânimos mais atentos e talvez a simpatia... Bom isso eu não sei.
Os dois viajaram juntos até Beaune, no coração da Borgonha.
Conversaram como se fossem velhos amigos, mas Karl tinha muito mais do que amizade no olhar.
Ela contou que trabalharia na colheita e no dia seguinte, bem cedo lá estava ele, na mesma vinícola com tesooura em punho para o primeiro dia de trabalho.
Cada um fazia uma fileira, mas claro que a pausa era de muita conversa, vinho em copo de plástico e um Coq au Vin maravilhoso.
Foram 2 semanas indo de vinhedo em vinhedo.
Muita conversa, muito respeito.
Nada de beijo.
Ele queria.
Ela também, mas tinha receio e muita classe para afastar o pretendente.
Era um jeito que não afastava completamente e nem aproximava o suficiente para um beijo.
A noite ela evitava conversa.
Banho e cama.
Karl, em sua segunda ou terceira fervura, teve a paciência que a experiência de vida presenteia.
Olhava para Anna como quem olha uma obra de arte.
Anna já perdia forças para afastar.
Os dias corriam e já quase não sobravam uvas nos pés.
Era hora de decidir.
Anna tinha medo de repetir erros do passado.
Karl tinha medo de não tentar acertar o futuro.
Na última noite a colheita terminou com uma festa.
Todos iriam.
Foram horas de conversa.
Os dois abriram os livros de suas vidas.
A holandesa Anna já não tinha mais forças para afastar Karl.
Karl já não tinha condições de resistir.
O beijo foi longo.
A volta para Amsterdam foi rápida como sempre.
A vida de Karl e Anna segue o curso.
Os dois continuam celebrando o amor todos os anos, repetindo o ritual da colheita.
As filhas, de 10 e 11 anos já conheceram São Paulo, Fortaleza, e claro, a Borgonha...
Anna perdeu o medo do passado. Já nem lembra mais.
Karl perdeu a incerteza com o futuro.
Hoje, os dois passaram a escrever 4 vidas no mesmo livro.

quinta-feira, julho 23, 2015

A música ainda toca - Conto



Pra saber a história de John é preciso trilha sonora.
As instruções é que escute essa música enquanto eu conto:



John conheceu Marilia nos vinhedos de Napa Valley, antes mesmo de fazer as contas de quantas garrafas teria naquela safra ensolarada de 1981.
Marilia era uma brasileira interessadíssima pelos caldos californianos.
John interessadíssimo em viver algo novo, algo intenso, algo que fosse longo como os vinhos que fazia com a elegante Merlot.
Ela era doce.
Alta, magra, linda como deve ser uma personagem de romance barato.
John era simplesmente John.
Tudo que fazia era bem feito e os detalhes faziam uma diferença muitas vezes gigantesca em qualquer coisa que se dispunha a colocar as mãos.
Ela fez um passeio guiado. Visitou vinhedos, comeu churrasco, bebeu os melhores vinhos e aparentemente se apaixonou.
John vivia um sonho e não fazia nenhuma questão de acordar, mas a realidade implacável muitas vezes berra e não há sonho que resista.
Foram meses de paixão.
Ela vivia em San Francisco e pegava o carro todos os dias para passar algumas horas com John, alguns dias, semanas talvez.
John se sentia o homem mais feliz do mundo.
Mas Marilia sempre tinha algo que a incomodava.
Nunca estava completa.
Era agradável, doce, não perdia a simpatia, mas a alegria vivia perturbada por algo incompreensivel.
Alguns dias acordava feliz e com uma disposição de fazer inveja a maratonistas.
Outros dias não tinha vontade de sair da cama.
Nenhum motivo aparente.
John se esforçava para ajudar, fazia o que podia, mas era inútil.
Esperava passar e ganhava de presente uma Marilia eufórica no dia seguinte.
Com o tempo os dias de euforia eram vividos com apreensão pelos dias que viriam a seguir.
John se esforçava para entender, se informava e acabou chamando Marilia para uma conversa.
Foi começar a falar no assunto para que tudo virasse um inferno.
Marilia não queria falar sobre isso e não falava.
Era assunto proibido e ponto.
Depois de alguns dias de luz, Marilia se trancou no quarto com uma caixa de vinho e ficou incomunicável por quase uma semana.
John tentava de tudo, mas era como se falasse com um poste.
Mais uma vez o pesadelo foi dar uma volta e John aproveitou os dias de euforia para conversar mais uma vez.
Dessa vez não ouviu os apelos de não tocar no assunto e insistiu para que Marilia fosse procurar um tratamento.
Ela quase conseguiu fingir que faria isso, mas preferiu passar uma boa noite e ir para o trabalho no dia seguinte.
John voltou dos vinhedos e nada de Marilia.
Telefonou e nenhum sinal.
mandou e-mails, mensagens por todos os canais.
Quem sabe no facebook? LinkedIn?
Nada.
Isso nem existia...
Esperou.
1, 2, 5, 10 dias.
1 mes.
1 ano.
Continuou tentando.
Ela mudou de trabalho.
Mudou de casa.
Fechou os canais.
John ainda espera.
A música ainda toca...

quarta-feira, julho 15, 2015

A maldição das travessuras da menina má - Conto



Com o sangue italiano queimando nas veias, Pietro entrou no voo da Alitalia com destino a Nova Iorque, com o livro em baixo do braço.
O romance, As travessuras da menina má, do genial Mario Vargas Llosa era o céu e o inferno pra ele.
Primeiro porque tinha adorado a leitura.
Depois porque o tal livro entrou na vida dele.
Parecia uma maldição.
Ele resolveu reler a história para encontrar uma forma de sair da ficção e reconquistar a realidade.
A história do amor de Ricardo Somocurcio pela malvada Otília era quase uma biografia para Pietro.
Ricardito havia sofrido todo tipo de humilhação por parte de Lily (Otília).
Parecia que Pietro via o rosto de Donatella.
Ela era uma jovem e promissora produtora de vinhos no Piemonte e ele um toscano que negociava os melhores rótulos da "bota" pelo mundo afora.
Ela 1 metro e 65, olhos verdes, corpo bem distribuído e um olhar que era capaz de virar o rosto daqueles guardinhas ridículos da Inglaterra.
Pietro era Pietro, mais pra alto que pra baixo, mais pra jovem que pra velho, mais pra irresistível que para insignificante.
O livro esquentava e a cabeça de Pietro também.
Uma boa taça de vinho, mais uma, mais uma...

A realidade de Pietro era a montanha russa que Donatella fazia da cabeça dele.
Era dispensado a cada semana.
Não sabia o motivo de nada, mas levava um pé na bunda por semana.
Donatella estava incomunicável.
Covardemente tinha cortado todos os canais de comunicação, como se estivesse na idade média.

O livro caminhava rápido.
Tão rápido que a história parecia diferente.
Lily era tão doce e bem resolvida que Ricardito era só felicidade.
As fugas e traições de Lily se transformaram em fidelidade e cumplicidade.
O livro passou a ter imagens.
Aos poucos o rosto de Ricardito era o de Pietro.
O rosto de Lily era o de Donatella.
A história de humilhação e sofrimento se transformava num romance de começo meio e final feliz.
Até sem graça.
Era tão real que Pietro nem precisava virar a página.
Tudo vinha como num passe de mágica...
-Sveglia...Sveglia...
O avião vazio e a ducha de água fria da realidade fizeram correr lágrimas dos olhos de Pietro.
O livro não tinha saído das primeiras páginas.
O sonho não saía da cabeça de Pietro.
Colocou os óculos escuros e saiu rápido.
Talvez, assim como Ricardito, esteja pronto para aceitar Donatella de volta.
Talvez a maldição do livro tenha ido embora, mas mesmo que tenha ficado, agora Pietro sabe que na vida é indispensável sonhar...


sábado, julho 04, 2015

Nem Freud, nem Jung aprovariam... Mas Claude aprovou. Conto



-Pode entrar Monsieur Claude.
Era a primeira vez que Claude entrava naquele consultório para colocar os pensamentos em ordem depois de anos de desencontros.
Mademoiselle Valerie era quieta e séria como deve ser uma psicóloga que segue a risca os ensinamentos de Jung.
Alta, magra, olhos azuis, pernas longas e estrategicamente escondidas por uma saia bem cortada, elegante, tentando fugir da inevitável sensualidade.
-Não tenho sorte com as mulheres.
Me apaixono sempre. A primeira foi embora com tudo que eu tinha.
Me reergui e a segunda levou uma parte do meu coração.
A terceira, Michelle, refez o pedaço que faltava.
Me deu alegria, luz, o amor que eu ainda não conhecia.
Eramos como um filme com final feliz.
Eu sonhava com uma vida inteira com ela.
Dei todo amor que eu tinha.
Minha alma combinava com a dela.
Um dia quando saí para comprar um anel de noivado, ela falou comigo ao telefone e esqueceu de desligar.
Naquele momento o mundo acabou.
O dia ensolarado parecia uma tarde chuvosa.
O chão desapareceu.
Meu peito doía de verdade.
O estômago parecia em brasa.
Voei pra casa, abri a adega, peguei um espumante, depois um vinho, depois um Porto, depois café.
Nada de sono.
Vivi os 9 meses com ela como se fossem 9 anos.
Dei minha alma pra ela.
A conversa do telefone não saía da minha mente de jeito algum:
-Claro que te amo, amor... Impossível viver sem você... Mais um pouco de paciência e ficaremos juntos pra sempre...
A conversa de Michelle com um amante foi pior que a morte para Claude.
Claude era um homem super cobiçado, mas só tinha olhos para Michelle.
1 metro e 85, corpo atlético, sorriso irresistível, simpatia capaz de atrair sorrisos de funcionários públicos em final de expediente...
Romantico.
Valerie usava os óculos perfeitamente de acordo com seu rosto fino.
Claude não olhava pra ela.
Olhava vez ou outra para uma ampulheta que contava os minutos com grãos de areia que pareciam avisar que o tempo passa, felizmente.
Era o que Claude mais queria.
-Quero que o tempo voe, não aguento mais pensar naquilo que ouvi.
Valerie fez um som inesperado.
Claude levantou a cabeça e viu os olhos da psicóloga cheios d'água.
Não é possível, pensou Claude.
Olhou mais uma vez e confirmou.
Ela chorava a cada palavra.
Distante dos ensinamentos de Jung e Freud, ela se envolveu com a história.
Percebeu o olhar de Claude e se levantou.
-Desculpa.
Não sou capaz de continuar.
A ampulheta ainda estava na metade.
Claude se levantou e tentou acalmar Valerie.
Ela envergonhada enxugou os olhos, pediu diversas vezes desculpa, devolveu o dinheiro e olhou nos olhos de Claude.
-Te indico uma amiga.
-Não, volto para a próxima seção.
As seções seguiram por quase um ano.
Valerie chorou diversas vezes. Nunca com os outros pacientes.
Claude melhorava dentro do possível, mas o tempo passava, felizmente.
Michelle se arrependeu profundamente, mas não teve coragem de tentar de novo.
No primeiro domingo de sol de uma primavera inesquecível, Valerie e Claude se encontraram por acaso.
As cores do jardin des Tuileries estavam vivas.
Claude não via mais a escuridão. O chão estava ali, o peito respirava livre, leve, suave.
A ampulheta fez o tempo passar rápido e os olhos que eram de Michelle descobriram Valerie.
-Salut, Valerie!!!
-Salut, Claude!!!
Os dois passearam pelas margens do Sena como se tivessem se visto pela primeira vez.
Valerie explicou que Feud criou o conceito de amor de transferência, quando o paciente repete com o terapeuta os amores e os problemas de relacionamento que enfrentou na vida.
Claude parou em frente a Ponte Alexandre III, olhou fundo nos olhos de Valerie e deu o beijo mais longo de sua vida.
Ela chorou de novo. Sabia mais do que devia do seu futuro marido.
Tomaram um vinho rosé bem gelado e sepultaram o passado.

segunda-feira, junho 29, 2015

Leonardo queria ser Da Vinci e acabou atravessando o espelho... - Conto



Leonardo não tinha esse nome por acaso. 
E não era por acaso que ele passava algumas horas por semana no museu do Louvre vendo a Monalisa. 
Seu pai era um grande especialista em artes e passou junto com o nome, ensinamentos que devem acompanhar Leonardo até o final da vida. 
A grande obsessão de Leo era descobrir o motivo do sorriso da Gioconda. Pesquisas, entrevistas, suposições, nada era capaz de revelar o segredo. 
A arte era uma desculpa para abandonar a gerencia da maior loja de vinhos de Paris e passar algumas horas em transe. 
Nem é preciso dizer que era apaixonado e uma verdadeira enciclopédia sobre os vinhos italianos. 
Passar pelo menos uma hora diante do sorriso da Gioconda era além de uma terapia, uma viagem no tempo. 
Monalisa seria o próprio Leonardo (o Da Vinci)? Seria uma irônica que ria das imbecilidades humanas? Seria uma alma viva que atravessava séculos sorrindo e pensando: perdoai-vos, eles não sabem o que fazem… 
Naquele dia em especial Leo teve a certeza que ela era o passado, o presente e o futuro. 
Olhou para os lados e via a quantidade de selfies, cameras, euforia… 
Gente que pouco sabia o que estava vendo. 
Ao seu lado um mexicano gravava tudo que via em um celular. 
Nesse dia Leonardo estava especialmente decepcionado com Elisabetta. 
A milanesa saiu de casa fazia uma semana e disse que jamais voltaria. 
A Gioconda ria. 
Leonardo tinha uma relação de amor e ódio com o quadro. 
Para ele uma alma viva. 
A vontade era de esbravejar, ofender, atravessar a dimensão e tirar satisfações com a sorridente misteriosa. 
-Você sabe exatamente do que estou rindo. 
-Gioconda!!! 
-Quantas vezes você sabia que não estava fazendo a coisa certa e mesmo assim seguiu em frente? 
-è vero… 
-Quantas vezes olhou para meu rosto e percebeu o recado e mesmo assim insistiu… 
Otário!!! 
-Monsieur…Monsieur… Le musée est fermé… 
Ufa!!! 
Era um sonho? Um pesadelo? 
Leonardo deixou o museu relaxado… 
Triste por Elisabetta, por ele mesmo, mas feliz por ter desvendado o mistério. 
A Gioconda vive e ri de todos nós…


domingo, junho 28, 2015

Victoria tinha 2 corações... - Conto



Viver viajando pela Espanha com a desculpa verdadeira de que é preciso vender os vinhos que o pai produz, ajudou Victoria a conciliar o amor de Paco com o amor de Tiago.
De segunda a sexta viajava, mas procurava dormir sempre em Madrid, onde Paco lhe esperava com todo o amor que havia nessa vida.
Nos finais de semana, voltava carinhosa e cheia de dengo para os braços de Tiago, na bela Barcelona.
As duas cidades rivalizavam até nisso...
Para evitar confusão, chamava os dois de amor, amorzinho, paixão, nada pessoal.
Também tomava o cuidado de quando comia algo diferente com Paco, corria para comer a mesma coisa com Tiago.
Vai que por engano cita alguma experiência gastronomica trocada...
O celular tinha devidamente dois chip's que eram sempre devidamente escolhidos de acordo com o dia da semana.
A desculpa era que como estava em trânsito, era melhor que ela ligasse.
Tudo muito bem planejado, mas nada programado dentro da cabeça de Victoria.
O caso é que ela amava os dois.
Me faz lembrar o clássico de Truffaut: O homem que amava as mulheres.
Ela amava os dois homens com a mesma intensidade, a mesma admiração, o mesmo tesão...
Impressionante como se derretia para cada um dos dois.
Era sorridente, bonita, tinha brilho nos olhos.
Tudo andava como planejado, não fosse o tal de whatsApp...
Num sábado ensolarado, na praia de Sitges, Tiago foi pegar um cigarro na bolsa de Victoria e viu que o telefone tremia como um atacante na hora do pênalti.
Teve que olhar.
As palavras que leu eram muito difíceis de digerir e Tiago nem esperou pela volta de Victoria.
Pegou um ônibus e sumiu do mapa.
Victoria ficou desesperada e só não chamou a polícia porque percebeu que as mensagens de Paco tinham sido lidas.
Chorou compulsivamente.
Voltou pra casa, tomou um banho, pegou as roupas e foi direto pra Madrid.
Paco não entendia nada, mas tentava acalmar Victoria que parecia em estado de choque.
Ela parou de comer, parou de trabalhar, quase não falava e só procurava alguém que lhe desse notícia do amado Tiago.
Paco foi muito bom pra ela.
Pelo menos até o telefone tremer de novo e dessa vez ele ler o que o tal WhatsApp tinha a dizer.
-É muito duro viver sem teu amor Victoria, mas não suporto essa situação. Deve estar a muitos anos com o tal Paco...
Paco leu a mensagem e entrou em parafuso.
Fuçou mais e descobriu mais coisas.
Pegou o carro e sumiu sabe-se la pra onde.
Quando Victoria percebeu o que tinha acontecido pegou as roupas, o carro e voltou para Barcelona.
Se fechou no quarto e abandonou as vendas, o celular e de certo modo a vida.
Não fazia mais nada.
O pai precisou encontrar outro vendedor.
Tiago só apareceu para buscar suas coisas, mas não conseguiram se falar. Trocaram olhares duros e dóceis ao mesmo tempo.
Paco fez um escândalo danado em Madrid.
Nunca mais apareceu.
Victoria escreveu um livro contando a história, sem que ninguém soubesse que era ela mesma a personagem, e acabou ganhando uma fortuna.
Explicava como era possível amar da mesma forma dois homens.
A mulher que amava os homens, ficou sozinha.
Trabalhou, voltou a viver, voltou a comer, voltou a vender vinhos, mas nunca mais voltou a sorrir...
Quando soube da história, com tantos detalhes só consegui lembrar da frase de Chaplin:


sábado, junho 27, 2015

Bruno espera Roberta. - Conto




-Ciao amore. Ti amo ogni giorno di più...
Era uma despedida normal.
Bruno trabalhava nos vinhedos, enquanto Roberta trabalhava num banco em Milão.
Se encontravam sempre que possível e era sempre um sonho.
Era uma despedida breve. Pelo menos era o que pensava Bruno.
No trem até a toscana, Bruno como sempre pensava em Roberta.
Chegou em Lucca, pegou o carro e seguiu para o trabalho.
Roberta na cabeça, como sempre.
No final do dia, cansado, procurou Roberta.
Nada.
A noite foi longa, sem pregar os olhos.
Não conseguia entender o que tinha acontecido.
Lembrava de algumas conversas, que Roberta poderia não ter gostado, mas nada era pra tanto.
O dia nos vinhedos foi terrível, era época de poda verde e a cabeça e parece até que os olhos estavam em Roberta. Ele parecia ver o rosto doce, os olhos preocupados, o olhar carinhoso...
Roberta não era de se expressar muito bem, por isso, qualquer palavra mal colocada poderia ser uma tragédia em sua cabeça.
Pensamentos trocados, embaralhados...
Bruno tentava ligar.
Roberta visivelmente queria sossego.
Sossego momentâneo???
Não havia modo de saber.
Bruno fazia tudo e mais um pouco por Roberta.
Isso por um lado trazia tranquilidade e leveza na consciência e por outro preocupava muito mais.
O que teria incomodado Roberta?
Depois de 3 dias conseguiu falar, mas nem isso trouxe a paz que esperava.
Roberta tinha voz triste, mas não era mais a Roberta de Bruno.
Pedia tempo para pensar.
O que significa tempo pra pensar hoje em dia???
Todo mundo sabe não é mesmo?
Bruno também.
O jeito era esperar o tempo.
As uvas amadureceram bem.
A colheita correu sem nenhum problema.
Veio o inverno.
Os vinhedos descansaram.
Neve.
Frio.
Os vinhedos choraram na época certa. 
Bruno chorava diariamente.
Os brotos apareceram.
O ciclo dos vinhedos seguiu normalmente.
Nem sinal de Roberta.
Bruno parecia esperar que o telefone tocasse a cada segundo.
Nunca desgrudava do celular.
Hoje já se passaram 3 colheitas.
O celular continua grudado em Bruno.
A cabeça continua em Roberta.
Bruno acostumou a dormir menos.
Acostumou a trabalhar mais.
Acostumou a ocupar o dia e a noite mal dormida.
Mas não acostuma sem o carinho de Roberta.

quinta-feira, junho 25, 2015

O ciúme não era maior do que o desejo de João - Conto




-Sai daqui.
Não quero te ver...
O desabafo era compreensivel.
Era mais do que compreensivel.
Marta saiu sem dar explicações, sumiu por 3 dias, voltou como se nada tivesse acontecido.
João Manuel era um cara que atraia pelo que sabia.
Sabia de tudo e como poucos.
Sabia de política, de esportes, de economia, de música, de arte, de tudo.
Tudo e mais um pouco.
Além disso não era de se jogar fora no quesito beleza física.
Martha era um espanto.
Alta, magra, cabelos loiros, olhos castanhos claros, corpo escultural.
Bunda, peitos... Tudo.
João não era ciumento.
Deixava Martha livre, mas 3 dias...
É muita coisa.
Martha saiu sem dizer nada.
João seguiu para os vinhedos e trabalhou como se nada tivesse acontecido.
Voltou, tomou banho, jantou, entrou no computador, deitou...
E onde estava Martha???
Lembrou do que havia acontecido e logo pegou o telemóvel: Martha... Onde você está?
-Me mandou embora e eu vim.
-Mandei naquele momento, não agora.
Martha pegou o carro e voltou.
Se falaram como se nada tivesse acontecido, se amaram como se nada tivesse acontecido e dormiram como anjos.
No dia seguinte João acordou e correu para o trabalho.
Engarrafamento da safra anterior, esvaziar tanques, colheita atual chegando...
Muita coisa.
Voltou no final da tarde.
Tomou banho, jantou...
Onde estava Martha?
Pegou o telefone e nem por isso conseguiu alguma coisa.
Fora de área.
Dormiu sozinho como um eremita.
Acordou, saiu para os vinhedos, pegou o telefone e ligou pra Martha.
-Desculpe amor. Não consigo contar o que aconteceu, só peço desculpas.
João voltou para casa. Tomou uma ducha (falam duche em Portugal) e abriu uma garrafa de vinho.
Tomou devagar, pensativo.
No dia seguinte voltou ao trabalho.
Na semana seguinte começou a colheita.
No mes seguinte Martha telefonou.
-João...
-Diga Martha.
-Posso voltar?
-Pode.

quinta-feira, junho 18, 2015

Miguel viu tudo ficar pequeno, mas construiu coisas grandes... - Conto



Miguel nasceu entre os vinhedos. 
Aos seis anos já corria de um lado pro outro, se divertindo na colheita e tentando ajudar a mãe na mesa de triagem.
O pai deixou pra trás os vinhedos, deixou pra trás a família e foi viver em Madrid com uma cigana que depois de ler sua mão entrou também definitivamente em sua mente.
Menos mal que Dolores, a mãe de Miguel, era forte como uma pedra.
Também era dela a tradição vinícola.
Sabia tudo do trabalho nos vinhedos, sabia tudo e mais um pouco sobre a vinificação, mas vender...
Não tinha nenhuma vocação para os negócios.
Miguel era uma criança quando sua mãe precisou vender tudo.
Os dois fizeram a mudança e ele jamais esqueceu os olhos de Dolores vendo os vinhedos ficarem pequenos durante a partida para Barcelona.
Miguel cresceu lentamente, como acontece em anos de sofrimento. 
Aos 15 começou a trabalhar numa vinícola no Priorato.
O trabalho era impecável e os conselhos de Dolores indispensáveis.
Conheceu Maribel nessa época.
Parecia impossível, parecia que se multiplicou em dois. 
Dava a mesma dedicação aos vinhedos e mais dedicação ainda para Maribel.
O sucesso no trabalho, ajudou Miguel a comprar seus próprios vinhedos, fazer seu próprio vinho...
Aos 21 anos tinha mais hectares do que tinha o seu primeiro patrão.
Maribel recebia a mesma dedicação, mas parecia cada dia mais distante de Miguel. 
Sabe-se lá o motivo...
Era hora de resgatar o passado.
Num almoço em família, num domingo ensolarado, Miguel olhou para Dolores e disse: Prepara Mamá. Nos pondremos todo lo que era nuestro...
Dolores era forte, mas forte mesmo, mas nessa hora teve que chorar.
Os dois se abraçaram diante do olhar neutro de Maribel.
Não demorou uma semana e Miguel fechou o negócio.
Na viagem de volta, os olhos verdes de Maribel estavam cheios de lágrimas.
Miguel esperava que ela fosse junto, mas também esperava com tristeza por esse desfecho.
No carro, em direção a Ribera del Duero, viu Maribel ficar pequena, mas viu os olhos de Dolores brilharem como nunca tinha visto...

terça-feira, junho 02, 2015

A traição pegou os ouvidos de Raji - Conto


Talvez não fosse o lugar para um conversa tão franca.
Talvez fosse sim.
Afinal o que se faz numa viagem longa de ônibus…
O argelino Raji viajava pra Portugal rever os amigos, os parentes…
Ele vivia na França há mais de 20 anos, mas viveu a infância na cidade do Porto.
Trabalhou em vinhedos, em caves de Vila Nova de Gaia, fez de tudo um pouco. Sempre com o vinho.
O personagem da história não é bem ele. Talvez seus ouvidos.
Do banco da frente do dele, vinha o som da conversa mais dramática dos seus quase 50 anos.
Um casal conversava em voz baixa, sem briga, sem ofensas, sobre uma traição.
Raji não soube o nome de ninguém, os dois se chamavam de amor.
A traição foi dela.
Ele só escutava.
Depois ele só falava e ela só escutava.
Nos tempos modernos, esse tal de whatsapp…
Ele pediu pra ela mostrar as mensagens.
Ela aceitou.
Ele tremia lendo cada frase.
As lágrimas corriam dos seus olhos, mas junto só havia o silêncio.
Depois de uma leitura longa que englobava mais de 1 mês de encontros, uma breve conversa.
Vez ela chorava, vez ele chorava.
Não era dessas conversas cheias de ódio.
Era amor.
Ele enxergava a situação como incontornável…
Ela também.
Ela dizia que pensava em continuar tudo como antes.
Mas não negava que a experiência tivesse sido boa. Que fez porque quis, sem muito arrependimento.
O choro e as lágrimas se revezavam de olhos, mas estavam presentes a cada pausa.
Algumas vezes em cada parágrafo…
Foram horas de viagem.
Horas com os ouvidos tentando pegar cada detalhe.
Um rapaz de 20 anos era o motivo da traição.
Raji não via os rostos, as vezes se inclinava para pegar uma conversa mais reservada.
As vezes um beijo, as vezes um enxugava as lágrimas do outro.
O rapaz de 20 anos não tinha nada a perder. Era isso que ele dizia pra ela.
Raji, um cara forte e duro na queda já ameaçava derramar umas lágrimas também.
Descobriu que ela vivia em Andorra e ele em Paris.
Os dois se encontraram em Paris e entraram nessa viagem de revelações.
Raji bebia um vinho e procurava se desligar do assunto, mas não era possível.
Nem curioso era, mas parece que foi jogado em uma aula de comportamento, relacionamento, traição, sofrimento…
Na discussão sobre o que cada um perde em cada situação, ele disse que teve oportunidades também, mas não entrou em tentação por ter algo a perder.
Ela entendia, balançava a cabeça.
O ônibus parou e Raji não se conteve e perseguiu mais um pouco.
Os dois andavam em passos largos.
Ela pegou um comboio ele outro.
Não se sabe se traçaram caminhos diferentes para sempre.
Os dois seguiram os caminhos sem olhar para trás.

segunda-feira, maio 04, 2015

Abdul, Aharon, Lea... O amor... - Conto



Abdul era carinhoso demais.
Sempre fazendo elogios, sempre demonstrando seu amor.
As mulheres que passaram pela vida de Abdul jamais o esqueceram.
Muitas vezes voltavam, rodeavam, ficavam por perto.
E olha que se ele seguisse a risca sua religião poderia ter pelo menos 4 delas ao mesmo tempo.
Mas ele nasceu na França, filho de argelinos.
Seguia os ensinamentos do Alcorão com sabedoria.
Sempre pregava a paz, exercia a paz.
Era bom filho, bom patrão, bom amigo, bon vigneron...
Os 50 hectares de vinhedos na margem direita de Bordeaux garantiam a ele a um rendimento bastante razoável que além dos seus 1 metro e 90, olhos verdes e corpo atlético agregavam mais algum valor na "bolsa de futuros" das mulheres da região (e porque não de fora).
Ele era ao mesmo tempo o sonho e o possível pesadelo do que imaginava Lea.
Ela era judia e pensava que os pais não aceitariam muito facilmente o envolvimento com um muçulmano.
Alta, magra, olhos verdes, cabelos castanhos claros e um corpo que certamente encheria de inveja garotas de Ipanema.
Ela tinha 1 metro e 80.
Sofria com a falta de homens que pudessem olhar nos olhos sem sentirem uma certa inferioridade.
Abdul era o homem perfeito.
O envolvimento aconteceu como num passe de mágica.
Abdul como sempre não economizava palavras para demonstrar sua paixão.
Lea era comedida.
A paixão se transformou em amor em menos de uma semana.
Os dois não se largavam.
Para cada mil vezes "Eu te amo" uma resposta em voz baixa, quase inaudível: eu também te amo...
Por onde andavam eram reconhecidos e sempre provocavam comentários.
Pela beleza do casal, pela simpatia do casal... Não passavam sem serem percebidos.
Também pudera...
Somados tinham quase 4 metros.
Abdul não conhecia a familia de Lea, mas resolveu comprar uma aliança comprovar de uma vez por todas o seu sentimento.
Entrou na joalheria de Monsieur Aharon.
O senhor de barba branca, solidéu e olhar bondoso, atendeu Abdul como fazia com todos os clientes.
Muita cortesia, respeito, informações dobre o que vendia e competência única.
Perguntava bastante também.
Em 30 minutos era capaz de falar para o próximo freguês toda a história de Abdul.
Perguntou sobre a moça, sobre o trabalho do rapaz com os vinhos, sobre a safra, sobre as intenções dele, sobre sua família, sobre tudo...
Abdul saiu, encontrou Lea e logo armou a cena para a entrega do presente.
Ela ficou muito feliz, muito lisonjeada, muito preocupada.
Como seus pais aceitariam essa união com um muçulmano???
Foram 7 dias de insônia.
Abdul era completamente desligado sobre o assunto.
Achava realmente que sua fé não era capaz de influenciar na vida de ninguém.
Nunca olhou com preconceito para ninguém, nem percebeu nenhum olhar atravessado, já que tinha o hábito de cuidar unicamente da própria vida.
Lea não resistiu e ameaçou desfazer tudo, devolver o anel e abrir mão do maior amor de sua vida.
Teria feito exatamente isso, não fosse o acaso.
Ela deixou o anel em cima da mesa da sala de sua casa.
Seu pai chegou e reconheceu a peça instantaneamente.
-Lea... Lea... O que é isso?
-Não é nada pai.
-É sim.
-É um anel comprado por um homem apaixonado.
Um homem de bem. Um homem respeitado que conhece o ciclo dos vinhedos e da vida.
Um homem que faria tudo pela pessoa a quem entregou o anel.
-Como sabe disso pai?
-Abdul comprou esse anel na minha loja.
Lea não sabia qual era o sentimento naquele momento.
Era uma alegria tão forte, um orgulho tão grande, que ficou sem palavras.
Lágrimas corriam dos seus olhos verdes.
As pernas tremiam.
O celular caiu das mãos.
O abraço ao pai Aharon foi forte, intenso, definitivo.
Abdul veio para o jantar.
Conversaram por horas, e se em meia hora Aharon descobriu quase tudo, agora sabia mais da vida de Abdul do que ele mesmo.
1 ano depois na presença de cristãos, judeus e muçulmanos, os dois se uniram com a benção divina.
Lea aprendeu que não se pode imaginar o pensamento dos outros e aprendeu a dizer "eu te amo" sempre que tivesse oportunidade.
Abdul aprendeu que o mundo pode muito bem ser feito daqui pra frente.
Aharon ensinou que o melhor da vida, é ser um fio condutor de felicidade...

domingo, abril 19, 2015

Galiana e Edmond, Syrah e Tchekhov, e o cheiro de lavanda...



-Não é assim... Segure as uvas com cuidado, se ficar apertando os cachos perco todo o suco. A tesoura tem que cortar no lugar certo...
Galiana escutava, pensava nas dores nas costas, pensava no sossego que tinha em San Petersburgo, mas não desistia.
A fascinação que tinha pela Syrah era muito maior.
Pelo menos Edmond falava em russo e ela podia perfeitamente pensar em russo, mas engolir o que queria responder já que ele entenderia.
Edmond aprendeu a falar russo para atender melhor os clientes, para poder conversar com as mulheres que ele julgava as mais belas de toda a europa, mas principalmente para ler sem interferência de nenhum tradutor, os contos de Tchekhov.
Era uma troca de paixões. Ela pela Syrah e ele pelo Tchekhov.
Quando o trabalho terminava ele se transformava no mais gentil dos mortais.
Galiana sabia disso e aproveitava para reclamar um pouco.
-Você só reclama comigo. Tinha uma canadense que demorava horas na mesma fileira...
Edmond era alto, tinha olhos castanhos, barba cerrada, rosto de formato oval, cabelos ralos e um sorriso e uma cultura que poderiam derrubar de paixão qualquer pessoa que se aproximasse.
Galiana tinha cabelos castanhos, um metro e 65, olhos verdes, um sotaque apaixonante, pele branca de quem não se expõe ao sol.
Claro que as conversas até altas horas não poderia terminar de outra forma.
Pelo menos duas garrafas do melhor Syrah de Ermitage eram esvaziadas com calma e devoção.
No começo eram com beijos.
No final as garrafas eram deixadas de lado e o que Galiana sentia era o cheiro de lavanda dos lençóis e dos travesseiros.
Melhor se restringir ao sentimento olfativo.
No dia seguinte o mesmo ritmo de trabalho, a mesma cobrança...
Galiana sentia raiva passageira, sentia admiração, sentia saudades de San Petersburgo.
A noite se repetia como as manhãs.
Antes do trabalho sempre tinha uma frase de Tchekhov para que o dia de Galiana fosse bom.
Os dias eram quentes, as noites nem tanto.
As madrugadas sim, cada dia mais, entre Edmond e Galiana.
Ele estava visivelmente apaixonado.
Ela era sempre mais contida.
Já sobravam poucas uvas para colher, e parece que inconscientemente Edmond parava de cobrar para que o serviço fosse mais lento, que levasse mais tempo, que durasse pra sempre.
Ele sabia que Galiana iria embora assim que o último cacho de uva fosse cortado.
Inevitável.
As uvas tinham que ser colhidas e como tudo que havia lido de Tchekhov os finais nem sempre são finais.
Na última noite foram 4 garrafas, foram trechos e trechos de Tchekhov e uma explosão de amor seguida de uma crise de choro inédita na vida dos dois.
Galiana partiu pela manhã.
As promessas de criar uma ponte aérea entre os dois estava bem entendida.
Os dias que seguiram tiraram Edmond do prumo.
Galiana chorou em todo trajeto até San Petersburgo.
Os dois voltaram a se encontrar, voltaram a se despedir, diversas vezes.
Edmond ia e voltava a seu estado normal.
Galiana tinha na memória o cheiro de lavanda dos lençóis e travesseiros.
Não conseguir trabalhar.
Edmond não conseguia dormir.
Já no inverno, quando o sol aparece pouco, a vida naturalmente fica mais triste e os pensamentos ruins passam por cima dos bons, Galiana estava entre o sonho e o despertar.
Ela sentia um cheiro de lavanda que não identificava se estava no sonho, mas não imaginava que estivessem no ar do inverno cruel de San Petersburgo.
Sentiu um corpo deitando a seu lado.
O cheiro de lavanda ficava mais forte.
Agora parecia mesmo um sonho.
Edmond acordou Galiana com um beijo longo e intenso.
Trouxe os travesseiros, os vinhos e os contos de Tchekhov.
Voltou a seu estado normal.
"Aquilo que provamos quando estamos apaixonados talvez seja o nosso estado normal. O amor mostra ao homem como é que ele deveria ser sempre."

Tchekhov


Vinha Grande - Douro 2022 - Casa Ferreirinh

Cereja, bergamota, violeta...  na boca tem corpo médio, taninos macios, sensação de frescor, sabor repetindo o nariz, mas com um toque de e...