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sexta-feira, novembro 20, 2015

O nome é Rocca delle Macìe, mas poderia muito bem se chamar Trinity


O mundo do vinho é cheio de histórias, isso ajuda a vender os vinhos. O problema é que na maioria das vezes as histórias são parecidas.
Essa não.
A história original de Italo, de Trinity, da Rocca delle Macìe.
Quem conta é o filho e hoje responsável pela vinícola, Sérgio Zingarelli.




Quem não assistiu o Trinity, pode conferir o filme completo, dublado, no Youtube.
Vai bem com um Chianti Clássico.


quinta-feira, março 27, 2014

Sobre filmes famosos - Sem Reservas - Por: Wania Westphal




O cineasta Scott Hicks, australiano nascido circunstancialmente na África em 1953 , é um apaixonado pelos bons vinhos e pela gastronomia.



Ele mesmo é proprietário de uma vinícola (Yacca Paddock Vineyard, na Península Fleurieu) em Adelaide, na Austrália. Depois de mais de trinta anos de carreira atrás das telas decidiu homenagear o universo gourmet. E escolheu um time de primeira para mostrar que há vida além das cozinhas dos bons chefs em Sem Reservas – No Reservation, de 2007.



Antes de trabalhar com a adaptação do roteiro original Mostly Martha, da colega alemã Sandra Nettlebeck, Hicks passou seis anos longe do cinema. Foi um período particularmente  sabático, em que se dedicou à produção de seus vinhos enquanto fazia alguns trabalhos em comerciais de TV e curtia  sua mulher e os dois filhos.
O diretor de  Shine (de 1996, que entre outros prêmios valeu ao australiano  Geofrey Rush o Oscar de melhor ator de 1997 pela atuação como o ‘brilhante’ pianista David Hellgott) juntou elementos interessantes, além de um casal belíssimo para protagonizar sua história.



Primeiro a (não tão) mocinha, a britânica Catherine Zeta-Jones que interpreta uma reconhecidamente  talentosa e intempestiva chef que comanda a cozinha do 22 Bleecker, em Manhattan. Monotemática, usa as sessões da psicoterapia - que foi obrigada a fazer por ordem da proprietária do restaurante - para falar de suas receitas, experimentações e savoir faire. Não tem filhos, não namora, vive sozinha e aparentemente não faz outra coisa da vida a não ser cozinhar , antes e depois de chegar em seu apartamento silencioso e encontrar zero recados na secretária eletrônica.



O ambiente muda muito quando Kate entra no espaço que escolheu para ser seu melhor habitat. Na que ela chama o tempo todo de “minha cozinha” , os assistentes e sub chefs não param um segundo nem podem descuidar de nenhum detalhe, tamanho o domínio que a chef tem sobre cada um dos aproximadamente 110 pratos servidos a cada jantar. E a tarefa começa muito antes, porque é ela pessoalmente quem conversa com os fornecedores, pouco depois das 4h30 da manhã (quando levanta da cama), escolhe os peixes e crustáceos num mercado ao pé da Ponte do Brooklin. Curiosamente, esse é um dos poucos lugares em que Kate se mostra simpática - com os peixeiros, para conseguir o melhor produto para os pratos que vai servir à noite.
Dia desses, a irmã de Kate, mãe solteira de uma garotinha de 9 anos, telefona para avisar que ambas estavam chegando para uma visita. A partir daí, a vida da chef  sofre uma reviravolta: cabe a ela a guarda da sobrinha (Abigail Breslin, de Sinais e Pequena Miss Sunshine) que, ao contrário da mãe, sobreviveu ao grave acidente de carro que ambas sofreram no caminho.
O impacto emocional é forte, e nesse momento o filme entra num ritmo perigoso  porque deixa de lado a sugestão uma simpática comédia romântica para se transformar num drama emocional doloroso, de uma Kate ainda mais deprimida, com a perda da única irmã, e da pequena Zoe que não só perdera a mãe alegre, jovial, apaixonada e alto astral – que deu à filha um nome que significa vida, no grego  - como  teria de passar os próximos anos ao lado de uma tia obstinada pelo trabalho que, a rigor, mal conhecia.



Boa hora para a chegada do galã Aaron Eckhart (o motoqueiro cabeludo de Erin Brockovich) , que interpreta Nick, um chef assistente contratado às pressas para dar conta da demanda na cozinha de Kate enquanto ela é obrigada pela patroa a tirar uma licença durante uma semana. É do americano Nick , com sua orientação italianesca – oriunda da ‘escola’ que ele cursou ao se mudar para Milão apaixonado por una bella regazza – o talento para convencer a pequena Zoe a experimentar uma pasta ao sugo com toques de manjericão.



“Você sabia que na Roma Antiga os jovens mascavam manjericão para combater o mau hálito?” A mentirinha não cola, mas quebra a resistência da garotinha, que devora o tagliarini como se fosse um copo d’água no meio do deserto depois de alguns dias praticamente em jejum diante da alta gastronomia da tia, na primeira semana em sua nova casa.
Não demora muito para a menina atuar na aproximação entre o novo amigo Nick e a tia Kate que, apesar do empenho para ser bacana, não passava de uma chata. Em meio ao nascedouro desse embrião de romance, surge também o ciúme profissional, uma vez que Nick, além de talentoso, é muito mais carismático e bem visto pelos subalternos que a chefe titular.
Entre uma situação e outra, são mostradas algumas dicas preciosas, como a escolha das trufas brancas adquiridas no mercado negro pela bagatela de $ 4.4 mil por quilo – seja lá o que isso signifique. Ou a inclinação do maçarico aceso em direção à sobremesa de natas que se transforma dez segundos depois num delicioso creme brulée. Sem falar no ingrediente secreto usado por Kate e que fez dela a responsável pelo melhor molho de açafrão de toda Nova York.



Um ponto alto de Sem Reservas é a música. Na mesma época em que rodava o filme, o diretor Scott Hicks mantinha uma estreita relação com o protagonista do documentário realizado também em 2007, Glass: A Portrait of Philip In Twelve Parts. Por isso, é o músico norte-americano Philip Glass, um dos mais influentes de sua geração, quem responde pela escolha da trilha sonora da fita. Lidiamo, da Traviata de Giusepe Verdi; Um Bel di Vendremo, ária de Madame Butterfly, de Giacomo Puccini; Via Com Me, de Paolo Conte, e uma das mais tocantes árias de Turandot de Giacomo Puccini , a Nessun Dorma, na voz de Luciano Pavarotti, são alguns exemplos do que se ouve ao longo dos 104 minutos do filme.



No mais, são citados Alain Passard, do três estrelas  L’Arpege, de París, e um hábito excêntrico  de arremessar pratos em aprendizes, além de um Dolcetto 2002 que parecia ser do Piemonte, mas era mesmo das colinas de Adelaide - num elogio sutil aos vinhos do Novo Mundo que o diretor tanto aprecia. Está longe de ser um grande filme, mas é bem cuidado, tem um apelo emocional significativo, uma excelente soundtrack e um final feliz. É um filme  razoável, para assistir sem reservas. E, de quebra, conhecer os três segredos da cozinha francesa que são revelados numa conversinha romântica entre Kate e Nick...


quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Sobre Filmes Brancos e Tintos - Surpresas do Coração (French Kiss) - Por Wania Westphal



Como imaginar alguém passar um dia que seja em Paris e não ver a Torre Eiffel?  Lawrence Kasdan e Adam Brooks conseguiram não apenas conceber essa ideia como escrever e filmar. Essa é uma entre tantas outras situações tão bem humoradas e charmosas quanto o resultado final de Surpresas do Coração, título original French Kiss, um filme que exala os possivelmente mais (encantadores?) bouquets de Auvergne .



O longa, de 1995, é uma daquelas comédias românticas  deliciosas para quem aprecia o jeito Meg Ryan de atuar. Assim "meio mulher meio menina" como o andar da protagonista Kate é definido pela personagem do vigarista Luc Teyssier, o quarentão francês interpretado por Kevin Kline. 
Falando nele, esqueça do falastrão de Um Peixe Chamado Wanda, releve o emborrachado Cole Porter de De-Lovely, delete o  pistoleiro em roupas de baixo de Silverado - faroeste em que o ator também fez parceria com o diretor Lawrence Kasdan, dez anos antes de ambos seguirem para o Sul da França, onde foi rodada a maior parte de French Kiss.


O Luc Teyssier de Kevin Kline é um homem que mesmo sem muito cuidado com a própria aparência (quase sempre meio 'seboso', de barba mal feita, cabelo desgrenhado) é atraente, quase irresistível - a despeito das picaretagens que apronta antes e durante os dias que passa com a professora de história Kate.
Ela, pobrezinha, faz quase tudo para realizar o sonho de ser a esposa do médico canadense Charlie (personagem de Timothy Hutton). Menos embarcar com o noivo numa viagem a Paris, por causa de uma aparentemente insuperável fobia de avião, e é aí que a coisa pega. 
Sozinho na capital francesa, Charlie apaixona-se perdidamente pela déesse Juliette (a deusa Susan Anbeh) e, por telefone, termina a relação com Kate. Disposta a reconquistar seu amor, a loirinha encara o pavor de avião embarca de Toronto a Paris, no voo de sete horas e tanto em que conhece o vigarista Luc.



A primeira referência ao vinho aparece quando são passados vinte minutos de filme e um Luc meio assustado, no banheiro do avião, desembrulha a pequena videira que trazia escondia junto ao peito. 
Ele fala com a plantinha docemente, poucas palavras, joga água da pia em sua raiz e volta a guardá-la envolvida por um colar de diamantes roubado que trazia de uma loja Cartier da América.
Como não queria ser pego e previa ser revistado pelos agentes do aeroporto francês, e sem que Kate percebesse, Luc esconde a videira e o colar na bolsa da moça de aparência certinha, que dificilmente  teria problemas na alfândega. 
A partir de então, passa a acompanhar Kate - e sua videira e seu colar - pelo resto da história. 
São diversas situações descontraídas, ainda que tolas, mas quem precisa de veracidade nas ruas e vielas de Paris? Nem na Côte D'Azur, onde as personagens se encontram na sequência do filme.
Ainda na capital, depois de saber o motivo para Luc ter sido tão solícito, Kate furiosa reclama: "Você escondeu uma planta na minha bolsa!" ao que ele responde, indignado: "Isso não é uma planta, isso é uma videira!"



No caminho de trem até a Cote D'Azur, fazem uma parada na estação de La Ravelle,  Puy-de-Dome, em que Luc nasceu e onde estão os vinhedos que pertencem à família dele há três gerações. 
Ao mostrar a propriedade para Kate, Luc explica que para se produzir um bom vinho é preciso ter algo de apostador. Num outro momento, ele mostra seu projeto de infância: uma caixa de madeira com diversas garrafinhas de vidro repletas de variadas ervas, frutos, sementes, os cheiros da região e demonstra , numa experiência delicadamente sedutora (com uma luz belíssima) como diversos ingredientes podem alterar não só o sabor como a personalidade de um vinho.
Mais tarde, leva Kate a um vinhedo completamente abandonado, e explica que ali, com aquela pequena videira americana, pretende fazer "um mix" e criar algo novo, naquela terra que passou anos descansando...



A trilha sonora, assinada por James Newton Howard (de O Fugitivo, O Sexto Sentido, Batman Begins e Sinais, entre outras) contempla tantos clássicos da música francesa quanto uma balada italiana e um surpreendente Van Morrinson quando a ficha técnica chega perto do fim. Por sinal, não desligue antes de ouvir Kevin Kline em sua versão para La Mer, de Charles Trenet.


Sim, eu parei de contar a história do filme. Há ainda outras referências, paisagens e passagens ilustradas direta ou indiretamente pelo vinho, uvas, vinhedos, taças de branco. Mas eu seria uma estraga prazeres se escrevesse tudo aqui.
Melhor ir sem pressa, aos pouquinhos, mas sempre com uma história que possa despertar o interesse dos iniciantes ou cativar ainda mais amantes dessa bebida,  como você, como eu.
A gente se encontra dia desses, diante da tela.

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Wania Maria Westphal não queria mudar o mundo quando concluiu o curso se Jornalismo, em 1987. Conseguiu, sim, o que desejava: trabalhar com esportes, 25 anos, com algumas passagens pelo noticiário geral, comportamento, até economia. Por causa de um grande amor, se interessou pelo vinho e juntou ao tema a outra paixão: o cinema. Assim passa a bater alguns papos com você, a partir de agora

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